As declarações do ex-governador Anthony Garotinho sobre uma operação policial que, segundo ele, aconteceria no dia seguinte, acabaram trazendo à memória um episódio recente envolvendo o presidente da Assembleia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro, Rodrigo Bacellar. Os personagens são diferentes. As circunstâncias também. Mas a pergunta central é praticamente a mesma: como informações sobre operações sigilosas chegam antes da hora a determinados agentes políticos?
Em entrevista ao SBT News, Garotinho afirmou que uma nova operação seria deflagrada no Rio de Janeiro no dia seguinte (quinta-feira) e atingiria um alto político do estado. A declaração chamou a atenção de jornalistas, que o questionaram sobre a origem da informação, já que não é a primeira vez que ele demonstra ter conhecimento antecipado de investigações.
Foi justamente ao tentar explicar como sabia da suposta operação que Garotinho acabou fazendo uma revelação, no mínimo, delicada. Pressionado pelos entrevistadores, afirmou que, quando foi governador, implantou um sistema de inteligência trazido de Israel e treinou policiais que, segundo ele, ainda hoje manteriam contato e lhe repassariam informações.
A questão, portanto, não é apenas o fato de Garotinho dizer que possui fontes. Em 2016, durante as investigações da Operação Chequinho, ele já havia mencionado, em audiência realizada em Campos, que tinha acesso a informações antecipadas, citando o sistema de Israel. A diferença é que, desta vez, a declaração foi feita em rede nacional e pode levantar questionamentos sobre a origem dessas informações e sobre a eventual existência de agentes públicos compartilhando dados de investigações sigilosas.
Se a interpretação das declarações estiver correta, há dois pontos que merecem apuração: ou Garotinho ainda teria acesso a uma estrutura de inteligência criada durante seu governo, ou policiais que integrariam órgãos estratégicos do Estado estariam repassando informações sigilosas a um agente político. Em qualquer uma das hipóteses, trata-se de um assunto que merece ser investigado.
O detalhe é que, no dia seguinte à entrevista ao SBT NEWS, a operação anunciada não aconteceu. Garotinho afirmou, então, que o suposto alvo teria fugido após tomar conhecimento da ação. Vazou para Garotinho e vazou para o alvo?
É evidente que o sigilo da fonte é uma garantia constitucional e um dos pilares do jornalismo. Outra coisa, porém, é a eventual obtenção ou divulgação antecipada de informações capazes de comprometer investigações ou impedir o cumprimento de medidas judiciais. Nesse caso, o interesse público exige esclarecimentos.
Em novembro do ano passado, Rodrigo Bacellar foi preso sob a acusação de ter vazado informações sobre uma operação policial que teria como alvo o então deputado estadual TH Joias. Diferentemente do episódio relatado por Garotinho nesta semana, aquela operação efetivamente foi realizada normalmente e resultou na prisão de TH Joias. Só depois foi divulgada a possibilidade de vazamento por Bacellar, o que não impediu a operação e seu resultado.
As circunstâncias são diferentes, mas a pergunta é a mesma: se havia conhecimento prévio de uma operação policial sigilosa e se esse conhecimento foi repassado aos alvos, quem vazou e por quê? É uma resposta que interessa não apenas à política, mas à própria credibilidade das instituições responsáveis por conduzir investigações.




